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09/02/2004 - Brasil : emprego
sem título
Informalidade atinge
38,1 milhões de trabalhadores no país
FÁTIMA FERNANDES
da Folha de S. Paulo
O trabalho informal atinge 58,1% dos ocupados no Brasil -ou 38,1
milhões de pessoas, segundo estudo da UFRJ (Universidade Federal
do Rio de Janeiro), concluído neste mês.
A partir de dados do Censo Demográfico de 2000, que abrange 556
microrregiões do país, o Instituto de Economia da UFRJ fez um
retrato do trabalho informal no Brasil, a pedido da OIT
(Organização Internacional do Trabalho).
O estudo detalhou a informalidade do trabalho em três níveis. O
percentual de 58,1% é identificado no nível três --o mais
abrangente--, já que considera também trabalho informal a
doméstica que possui registro em carteira e o trabalhador por
conta própria que contribui para a Previdência.
Ao considerar apenas os trabalhadores não registrados e os que
não contribuem para a Previdência --nível um--, o trabalho
informal no país chega a 48,5% dos ocupados. No nível dois, que
leva em conta as domésticas e os empregados que não têm
registro em carteira, mas que são contribuintes, sobe para
50,8%.
Perfil ampliado
Apesar de o estudo se basear em informações do Censo de 2000,
os dados são importantes para guiar as políticas de emprego do
governo, dizem a OIT e a UFRJ, já que detalham o perfil do
emprego em todo o país --capital e interior.
A PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística) acompanha o mercado de trabalho e
tendências do emprego em seis regiões metropolitanas do Brasil
por meio de amostragem.
João Saboia, diretor do instituto, diz que os números que
apareceram no seu estudo já são surpreendentes e devem ser mais
altos hoje, considerando o baixo crescimento do país e a queda
de renda do trabalhador de 2000 até agora. Isto é, o trabalho
informal já pode ter ultrapassado 38,1 milhões de pessoas em
todo o país.
"Os números que aparecem no estudo são preocupantes, mesmo
considerando somente os trabalhadores que não têm direito a
nada e não são contribuintes, que participam com 48,5% da
população ocupada do país", diz Saboia.
Para ele, o que mais retrata o tamanho do trabalho informal no
Brasil é o nível três de seu estudo, no qual ele leva em
conta, além da formalização da relação de trabalho, o fato
de a atividade ser ou não tipicamente capitalista.
Para ele, a relação entre uma empregada doméstica e sua patroa
não é tipicamente capitalista, o que torna assim essa atividade
informal.
Ao analisar o perfil do trabalho em nove regiões metropolitanas,
além de Brasília (DF), o estudo do Instituto de Economia
verificou que a informalidade é maior no Norte e no Nordeste. Em
Belém, a informalidade chega a 59,9% do pessoal ocupado,
considerando o nível mais abrangente --o três. Desse grupo,
Brasília registra o menor percentual --41,8%.
Saboia diz que o mercado de trabalho no Norte e no Nordeste do
país é mais frágil porque as atividades nessas regiões são
menos organizadas, diferentemente do que acontece no Sul do
país.
Um dado que mostra a fragilidade do mercado de trabalho na
região Norte e Nordeste, diz ele, é o tamanho do emprego
doméstico sobre a população ocupada. Em Belém, por exemplo,
chega a 10,5%, dos quais 7,9% dos trabalhadores não possuem
registro em carteira. Em Porto Alegre, esse percentual é de 6,7%
--3,2% dos trabalhadores domésticos não possuem carteira
assinada.
Desigualdade
A desigualdade do emprego entre as regiões do país também pode
ser constatada em levantamento do Instituto de Economia que mede
a renda do trabalhador nessas regiões. Em Belém, por exemplo, o
rendimento médio era de R$ 422 mensais em 2000. Em São Paulo,
de R$ 942, e, em Porto Alegre, de R$ 664. Essas diferenças, diz
Saboia, se mantêm hoje.
A PME, do IBGE, também constata um aumento do trabalho informal
no país. Apesar de o instituto não adotar a divisão de emprego
formal e informal, as pessoas que trabalham sem registro e por
conta própria acabam fazendo parte do mercado informal, na
análise de economistas. As que têm registro em carteira já
fazem parte do mercado formal.
Por esse conceito, a informalidade registrada nas seis regiões
metropolitanas do país é a mais alta desde março de 2002. O
número de pessoas que trabalham sem registro em carteira e por
conta própria bateu em 43% sobre a população ocupada em
dezembro de 2003. Recife apresentou a maior taxa: 50,4%. Porto
Alegre, a menor --38,2%.
"Há um avanço do trabalho precário e da queda da renda do
trabalhador no país", afirma Cimar Azeredo Pereira, gerente
da pesquisa de emprego do IBGE.
A informalidade e a queda na renda do trabalhador são reflexos
do baixo crescimento do país e da redução do emprego
industrial na década de 90, na análise de Fabio Silveira,
diretor da MS Consult. "Quem perdeu o emprego acabou se
transformando num subempregado, aquele que não tem proteção
trabalhista e social", diz.
Para ele, a situação do mercado de trabalho está tão
precária no Brasil que, "independentemente de o trabalhador
receber a etiqueta de informal ou formal, o fato é que ele deve
continuar a ter grande dificuldade para consumir". (©Folha
Online)
Sem registro,
balconista recebe menos da metade do piso em SP
da Folha de S. Paulo
"Só trabalho aqui porque preciso muito do emprego",
diz Fabiana Aparecida dos Santos, 24, vendedora de uma loja de
roupa infantil instalada numa das ruas comerciais mais conhecidas
de São Paulo, a José Paulino.
Há quatro meses na função, ela não tem registro em carteira e
recebe R$ 200 por mês, menos que o salário mínimo (R$ 240) e
menos da metade do piso de balconista -cerca de R$ 490.
O caso de Santos é um exemplo de trabalho informal. Para
sustentar os três filhos, ela tem mais dois empregos. Faz faxina
em uma loja de automóveis às terças-feiras e às
quintas-feiras. Aos sábados, trabalha em uma casa de família.
"Com esses três empregos dá para tirar R$ 600 por mês.
Não gosto disso, preferiria um emprego com carteira
assinada."
A poucos metros, em uma loja especializada em jeans, quem se
queixa é Lúcia de Fátima, 47, que trabalha há quase dois anos
como vendedora sem registro. Fátima recebe R$ 400 por mês, sem
direito a comissão.
"O dono da confecção diz que a firma não é registrada e,
por isso, também não pode empregar com carteira assinada."
As duas vendedoras não tiveram receio de falar com a reportagem
e também não se incomodaram em ser fotografadas.
Priscila Josué, 19, recebe um salário mínimo para trabalhar
como vendedora numa loja de lingerie do cunhado. Também não é
registrada. "O meu marido me ajuda aqui e não ganha
nada", afirma.
Empresa pequena
S.G.S., 22, que prefere não se identificar, tenta há três anos
obter registro em carteira como vendedora de uma confecção.
"O dono diz que a empresa é muito pequena e por isso não
tem condição de arcar com o custo da minha contratação."
S.G.S. diz não conseguir outro emprego porque as empresas exigem
tempo de experiência registrado em carteira.
'Tento regularizar minha situação há muito tempo. O pior é
que a fiscalização não passa por aqui", afirma.
'Está tão normal descumprir a lei hoje no país que os
próprios órgãos do governo divulgam a taxa de ilegalidade,
como o emprego informal", afirma Luis Carlos Moro, advogado
especializado em direito do trabalho.
Segundo ele, a informalidade no trabalho existe porque a
fiscalização é pífia. "O pior é que a informalidade
não existe só no emprego doméstico. Está também nas grandes
empresas e bancos." (©Folha Online)
Fonte:
Folha Online
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