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Religiosa e
sindicalista denunciam ameaças
A missionária norte-americana Dorothy
Stang, de 73 anos, 38 deles dedicados à luta pela reforma
agrária e contra a devastação da Amazônia, estaria marcada
para morrer em Anapu, no sudoeste do Pará, onde passou a morar
nos últimos dez anos. Além dela, outras lideranças de
movimentos sociais e ativistas dos direitos humanos também se
dizem ameaçadas de morte, como o presidente do Sindicato de
Trabalhadores Rurais do município, Gabriel Domingos do
Nascimento.
As ameaças partiriam de um grupo de
fazendeiros e madeireiros de Anapu descontentes com o trabalho da
religiosa em favor da implantação de um projeto inédito de
desenvolvmento sustentável no Estado dentro de uma área de 140
mil hectares pertencente à União Federal.
Para liberar a área para as 600 famílias
incluídas no projeto, o Incra enfrenta forte resistência de
madeireiros interessados em derrubar a floresta para a retirada
de espécies como mogno, cedro e jatobá. Ontem, durante reunião
na sede do Ministério Público Federal em Belém, Dorothy fez um
relato da situação em Anapu, pedindo a ajuda do superintendente
da Polícia Federal, José Sales, e do procurador da República,
Felício Pontes Júnior. Direitos- Não vou fugir e nem
abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no
meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor
numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem
devastar, disse a freira. Para ela, as autoridades estão
ausentes de Anapu. Tachada de terrorista pelos
fazendeiros e de anjo da Transamazônica pelos
agricultores da região, ela acaba de obter a nacionalidade
brasileira, apesar das pressões para expulsá-la do País.
De acordo com os movimentos sociais da
Transamazônica em carta enviada no final de janeiro às
autoridades do Pará, as ameaças de morte partem de grandes
fazendeiros envolvidos com fraudes na liberação de verbas da
extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia
(Sudam), além do pecuarista Yoaquim Petrola, dono da Fazenda
Anapu, onde na semana passada um segurança foi assassinado e
outros três sairam feridos durante ataque de um grupo armado de
invasores.
Fazendeiro teria contratado
pistoleiros
Yoaquim Petrola se diz proprietário dos lotes
4,5,6 e 7, cada um com 2.500 hectares, dentro das terras da
União. Ele teria contratado em Marabá os pistoleiros conhecidos
por Tufi e Júnior para matar irmã Dorothy e o sindicalista
Gabriel do Nascimento. Tufi teria dito pelos corredores do Fórum
de Marabá que havia comprado 4 mil cartuchos de espingardas
calibre 12 fora outras munições, gastando R$ 28 mil para limpar
a área de qualquer maneira. Petrola nega qualquer ameaça
e se diz dono da terra cobiçada pelos agricultores.
Investigações recentes da Polícia
identificaram o madeireiro de prenome Agildo como sócio de
Petrola. Os dois transportam à noite a madeira derrubada
ilegalmente durante o dia para evitar a fiscalização do Ibama.
Outro fazendeiro, Délio Fernandes, de Altamira, ainda segundo as
entidades de Anapu, teria prometido tirar o tampo da cabeca
da missionária. Ele não foi encontrado em Altamira para se
defender da denúncia.
PF dará proteção a
funcionários do Incra
O procurador da República Felício Pontes
Júnior informou que o Plano de Desenvolvimento Sustentado (PDS)
de Anapu será implantado pelo Incra com o apoio da Polícia
Federal e do Ibama, que irão garantir o assentamento de 400
famílias. Os agentes do Ibama terão na região o suporte de um
helicóptero, para fiscalizar as agressões ao meio ambiente.
Segundo Felício Pontes, ele recebeu denúncia
de agricultores de que os madeireiros estão abatendo as árvores
mesmo durante o período de inverno, para que o transporte seja
feito durante o verão. Eles continuam agindo mesmo com as
chuvas. Durante as mais de duas horas de reunião com mais
de 15 representantes das comunidades de Anapu, o procurador ouviu
muitas queixas e pedidos de providências.
O PDS de Anapu, na opinião do procurador, é
um dos poucos projetos na Amazônia de se fazer uma reforma
agrária onde se possa compatibilizar o desenvolvimento
econômico com a preservação do meio ambiente. Os
projetos de assentamento do Incra, salvo raras exceções, são
economicamente inviáveis e ecologicamente desastrosos.
Sobre as ameaças de morte contra lideranças
populares de Anapu, particularmente à missionária Dorothy
Stang, o procurador disse que a Polícia Federal dará segurança
a todos durante o assentamento na área do PSD, inclusive aos
funcionários do Incra.
Invasores presos por matar
segurança
O delegado Pedro Monteiro, da região do Xingu,
encontrou o corpo do segurança Moisés Andrade, de 26 anos, no
último dia 27, no município de Anapu. O segurança foi morto
às 7 horas da manhã, quando um grupo de 15 pessoas invadiu a
fazenda Rio Anapu, do proprietário Yoakim Jorge Petrola de Melo.
A fazenda fica localizada no Km 2, a 14 quilômetros da rodovia
Transamazônica. Na confusão, mais dois seguranças, Everton
Luis Mota de Oliveira, de 34 anos, e Paulo Sérgio de Oliveira
Neves Jr., de 22 anos, foram gravemente feridos. A Polícia ainda
não sabe ao certo quem matou Moisés, mas quatro pessoas foram
presas em flagrante no mesmo dia do crime, às 15 horas, por
terem participado da invasão. Úrsula Araújo de Souza, Claúdio
Bezerra da Costa, José Passos Rodrigues dos Santos e Júnior
Alves de Carvalho foram presos quando andavam pelo centro da
cidade.
Ao serem interrogados pela Polícia, os quatro
afirmaram que recebiam apoio do comerciante José Mendonça que
fornecia armas, e também da freira Dorothy Stand, que fornecia
os alimentos. Os quatro ainda delataram outras 11 pessoas que
participavam da ação. A Polícia tem certa dificuldade para
localizá-los porque até agora são poucos os suspeitos que são
conhecidos pelos nomes. Segundo os acusados, eles invadiram a
fazenda armados com rifles, revólveres e cartucheiras, tudo
cedido pelo comerciante, e não tiveram nenhum tipo de conversa
com as vítimas antes de atirar contra elas.
No momento da prisão, a Polícia apreendeu um
rífle calibre 38 e um revólver 38 em poder dos acusados. Os
presos foram transferidos para a delegacia de Altamira e estão
à disposição da Justiça de Pacajás. A Polícia continua com
as investigações para saber exatamente quem está por trás dos
crime e da ordem de invadir a fazenda.
As confusões envolvendo as terras do
fazendeiro Yoakim Petrola não são de agora. Em novembro e
dezembro do ano passado, ele foi acusado de perseguir os
agricultores Domingos Araújo Gomes, Darly Vanderley, José
Ribamar Martins, Otávio Guimarães, Odino Ferreira da
Conceição, Maycon Frota, Benedito Ribamar Martins e João
Evangelista Raposo, que enviaram documentos às autoridades de
segurança pública do Estado e à juíza da Vara Agrária de
Marabá, Kátia Parentes para registrar a perseguisão por parte
do fazendeiro. A briga é pela posse dos lotes 4, 5, 6 e 7 da
Gleba Mandoacari que corresponde a mais de 12 mil hectares. Os
agricultores afirmam que Petrola tenta a todo custo se apropriar
da área, mesmo não possuindo nenhum documento que comprove o
domínio. A Ouvidoria Agrária do Incra disse que as terras
pertencem à União
No ano pasado, seis pessoas foram presas e
afirmaram que o fazendeiro teria pago R$ 80 mil aos policiais
para fazer o despejo sem ordem judicial e também afirmaram que
Petrola contratou, em Marabá, os pistoleiros conhecidos por Tufi
e Júnior, para identificar e matar lideranças de Anapu. Na
lista de marcados para morrer estariam a freira
Dorothy Stang e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Anapu, Gabriel Domingos do Nascimento.(©O Liberal)