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04/03/2004 - Brasil : Amazônia

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Religiosa e sindicalista denunciam ameaças

A missionária norte-americana Dorothy Stang, de 73 anos, 38 deles dedicados à luta pela reforma agrária e contra a devastação da Amazônia, estaria marcada para morrer em Anapu, no sudoeste do Pará, onde passou a morar nos últimos dez anos. Além dela, outras lideranças de movimentos sociais e ativistas dos direitos humanos também se dizem ameaçadas de morte, como o presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município, Gabriel Domingos do Nascimento.

As ameaças partiriam de um grupo de fazendeiros e madeireiros de Anapu descontentes com o trabalho da religiosa em favor da implantação de um projeto inédito de desenvolvmento sustentável no Estado dentro de uma área de 140 mil hectares pertencente à União Federal.

Para liberar a área para as 600 famílias incluídas no projeto, o Incra enfrenta forte resistência de madeireiros interessados em derrubar a floresta para a retirada de espécies como mogno, cedro e jatobá. Ontem, durante reunião na sede do Ministério Público Federal em Belém, Dorothy fez um relato da situação em Anapu, pedindo a ajuda do superintendente da Polícia Federal, José Sales, e do procurador da República, Felício Pontes Júnior. Direitos- “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”, disse a freira. Para ela, as autoridades estão ausentes de Anapu. Tachada de “terrorista” pelos fazendeiros e de “anjo da Transamazônica” pelos agricultores da região, ela acaba de obter a nacionalidade brasileira, apesar das pressões para expulsá-la do País.

De acordo com os movimentos sociais da Transamazônica em carta enviada no final de janeiro às autoridades do Pará, as ameaças de morte partem de grandes fazendeiros envolvidos com fraudes na liberação de verbas da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), além do pecuarista Yoaquim Petrola, dono da Fazenda Anapu, onde na semana passada um segurança foi assassinado e outros três sairam feridos durante ataque de um grupo armado de invasores.

Fazendeiro teria contratado pistoleiros

Yoaquim Petrola se diz proprietário dos lotes 4,5,6 e 7, cada um com 2.500 hectares, dentro das terras da União. Ele teria contratado em Marabá os pistoleiros conhecidos por Tufi e Júnior para matar irmã Dorothy e o sindicalista Gabriel do Nascimento. Tufi teria dito pelos corredores do Fórum de Marabá que havia comprado 4 mil cartuchos de espingardas calibre 12 fora outras munições, gastando R$ 28 mil para “limpar a área” de qualquer maneira. Petrola nega qualquer ameaça e se diz dono da terra cobiçada pelos agricultores.

Investigações recentes da Polícia identificaram o madeireiro de prenome Agildo como sócio de Petrola. Os dois transportam à noite a madeira derrubada ilegalmente durante o dia para evitar a fiscalização do Ibama. Outro fazendeiro, Délio Fernandes, de Altamira, ainda segundo as entidades de Anapu, teria prometido “tirar o tampo da cabeca” da missionária. Ele não foi encontrado em Altamira para se defender da denúncia.

PF dará proteção a funcionários do Incra

O procurador da República Felício Pontes Júnior informou que o Plano de Desenvolvimento Sustentado (PDS) de Anapu será implantado pelo Incra com o apoio da Polícia Federal e do Ibama, que irão garantir o assentamento de 400 famílias. Os agentes do Ibama terão na região o suporte de um helicóptero, para fiscalizar as agressões ao meio ambiente.

Segundo Felício Pontes, ele recebeu denúncia de agricultores de que os madeireiros estão abatendo as árvores mesmo durante o período de inverno, para que o transporte seja feito durante o verão. “Eles continuam agindo mesmo com as chuvas”. Durante as mais de duas horas de reunião com mais de 15 representantes das comunidades de Anapu, o procurador ouviu muitas queixas e pedidos de providências.

O PDS de Anapu, na opinião do procurador, é um dos poucos projetos na Amazônia de se fazer uma reforma agrária onde se possa compatibilizar o desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente. “Os projetos de assentamento do Incra, salvo raras exceções, são economicamente inviáveis e ecologicamente desastrosos”.

Sobre as ameaças de morte contra lideranças populares de Anapu, particularmente à missionária Dorothy Stang, o procurador disse que a Polícia Federal dará segurança a todos durante o assentamento na área do PSD, inclusive aos funcionários do Incra.

Invasores presos por matar segurança

O delegado Pedro Monteiro, da região do Xingu, encontrou o corpo do segurança Moisés Andrade, de 26 anos, no último dia 27, no município de Anapu. O segurança foi morto às 7 horas da manhã, quando um grupo de 15 pessoas invadiu a fazenda Rio Anapu, do proprietário Yoakim Jorge Petrola de Melo. A fazenda fica localizada no Km 2, a 14 quilômetros da rodovia Transamazônica. Na confusão, mais dois seguranças, Everton Luis Mota de Oliveira, de 34 anos, e Paulo Sérgio de Oliveira Neves Jr., de 22 anos, foram gravemente feridos. A Polícia ainda não sabe ao certo quem matou Moisés, mas quatro pessoas foram presas em flagrante no mesmo dia do crime, às 15 horas, por terem participado da invasão. Úrsula Araújo de Souza, Claúdio Bezerra da Costa, José Passos Rodrigues dos Santos e Júnior Alves de Carvalho foram presos quando andavam pelo centro da cidade.

Ao serem interrogados pela Polícia, os quatro afirmaram que recebiam apoio do comerciante José Mendonça que fornecia armas, e também da freira Dorothy Stand, que fornecia os alimentos. Os quatro ainda delataram outras 11 pessoas que participavam da ação. A Polícia tem certa dificuldade para localizá-los porque até agora são poucos os suspeitos que são conhecidos pelos nomes. Segundo os acusados, eles invadiram a fazenda armados com rifles, revólveres e cartucheiras, tudo cedido pelo comerciante, e não tiveram nenhum tipo de conversa com as vítimas antes de atirar contra elas.

No momento da prisão, a Polícia apreendeu um rífle calibre 38 e um revólver 38 em poder dos acusados. Os presos foram transferidos para a delegacia de Altamira e estão à disposição da Justiça de Pacajás. A Polícia continua com as investigações para saber exatamente quem está por trás dos crime e da ordem de invadir a fazenda.

As confusões envolvendo as terras do fazendeiro Yoakim Petrola não são de agora. Em novembro e dezembro do ano passado, ele foi acusado de perseguir os agricultores Domingos Araújo Gomes, Darly Vanderley, José Ribamar Martins, Otávio Guimarães, Odino Ferreira da Conceição, Maycon Frota, Benedito Ribamar Martins e João Evangelista Raposo, que enviaram documentos às autoridades de segurança pública do Estado e à juíza da Vara Agrária de Marabá, Kátia Parentes para registrar a perseguisão por parte do fazendeiro. A briga é pela posse dos lotes 4, 5, 6 e 7 da Gleba Mandoacari que corresponde a mais de 12 mil hectares. Os agricultores afirmam que Petrola tenta a todo custo se apropriar da área, mesmo não possuindo nenhum documento que comprove o domínio. A Ouvidoria Agrária do Incra disse que as terras pertencem à União

No ano pasado, seis pessoas foram presas e afirmaram que o fazendeiro teria pago R$ 80 mil aos policiais para fazer o despejo sem ordem judicial e também afirmaram que Petrola contratou, em Marabá, os pistoleiros conhecidos por Tufi e Júnior, para identificar e matar lideranças de Anapu. Na lista de “marcados para morrer” estariam a freira Dorothy Stang e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu, Gabriel Domingos do Nascimento.(©O Liberal)

Fonte: O Liberal