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Sociólogo Boaventura de Sousa Santos
defende globalização alternativa
"Democracia
convive com fascismo social"
As fronteiras nacionais não são obstáculo para o sociólogo
português Boaventura de Sousa Santos, 60, quando se trata de
reunir argumentos contra a tese de que não há alternativas ao
atual modelo de globalização.
Atualmente, ele coordena uma pesquisa em seis
países de quatro continentes -Portugal, Brasil, Colômbia,
Índia, Moçambique e África do Sul- sobre formas de
resistência à exclusão social, que considera a principal
consequência do que chama de globalização neoliberal.
"O capitalismo deixou de fazer
concessões, a democracia perdeu a capacidade de distribuir
riqueza, e as sociedades acabaram desenvolvendo relações
fascistas", diz ele, referindo-se ao número cada vez maior
de pessoas excluídas do contrato social. Ou seja: que não têm
nenhum direito.
A perda de direitos e da noção de cidadania
está ligada ao que esse professor da Universidade de Coimbra
chama de "colapso das expectativas".
"O estabelecimento de uma sociedade é a
estabilização das expectativas. Hoje, como no fascismo, há
pessoas que não sabem se amanhã terão comida ou se
continuarão vivas", afirma
Como exemplo de "fascismo social",
ele cita o controle que facções criminosas exercem em favelas e
bairros operários.
Os excluídos são o mote do processo, ainda
embrionário, do que Santos chama de "globalização
alternativa", em contraponto à "globalização
neoliberal".
O professor, que esteve em São Paulo
participando do 1º Colóquio Anual de Direitos Humanos, ressalta
não ser contrário à globalização. Ele diz que é hora de
"reinventar a esquerda" para que ela possa contribuir
para a humanização do modelo.
Para Santos, a busca do bem comum, objetivo
abandonado pelas ciências em geral e pela economia em
particular, precisa voltar a ser o foco dos cientistas. "A
globalização é governada por uma economia que desconhece a
complexidade do mundo e é indiferente às consequências de suas
teorias."
A seguir, os principais trechos da entrevista
concedida à Folha na última quarta-feira.
Folha - O sr. afirma que sociedades
democráticas convivem com fascismo social. Poderia explicar esse
conceito?
Santos - É a extrema polarização da riqueza em muitos
países, e o Brasil é um bom exemplo disso -está criando uma
forma de convivência semelhante à produzida pelas sociedades
fascistas tradicionais. É a convivência com o medo, o colapso
total das expectativas, que é o fato de a pessoa viver sem saber
se amanhã estará viva, se terá emprego, se terá liberdade.
Esse tipo de convivência fascista não está sendo produzido por
um Estado fascista: o Estado é democrático, há partidos, há
assembléias, há leis, há instituições públicas.
Simplesmente há uma população, cada vez maior, que não tem
acesso a esses direitos.
Folha - O sr. pode dar exemplos dessa
situação?
Santos - Eu vou a uma cidade como Medellín, na Colômbia,
governada pelas chamadas "bandas", grupos armados
privados, como alguns que encontramos no Rio e em São Paulo, e
eles não são Estado. São sociedade civil, são máfias
privadas. E eles exercem funções do Estado, como a justiça,
por exemplo.
O que acontece também é uma colaboração entre o Estado e
essas máfias. É o exemplo das polícias, que, muitas vezes,
são tão corruptas quanto essas máfias e atuam em conjunção
com elas.
O que se passa hoje no Rio, por exemplo, é que uma parte da
polícia é muito ligada a grupos criminosos. A pergunta é: onde
acaba o Estado e começa a sociedade nesses casos? É muito
difícil dizer. É uma coisa híbrida.
Os grupos armados das favelas dizem às pessoas a que horas elas
devem entrar, devem sair etc. As relações sociais são
fascistas porque um grupo social tem direito de veto sobre
outros.
Folha - Como esse fenômeno se origina?
Santos - Vivemos em meio ao fascismo social porque a
democracia deixou de ter capacidade de redistribuição. A
democracia só tem tensão com o capitalismo, o que leva o
capitalismo a funcionar com um rosto humano, se tiver capacidade
de redistribuir: de tirar um pouco dos ricos para dar aos pobres.
O fascismo social emerge se a democracia deixa de fazer isso -e a
gente vê que no Brasil a decadência das políticas públicas
sociais vai nesse sentido.
O capitalismo só pode combinar com a democracia se ela for essa
caricatura de democracia em que a gente vive.
Folha - O sr. vê uma ligação entre a
crise da democracia redistributiva e a globalização. Existem
alternativas a esse processo?
Santos - Na década de 80, entendeu-se que a globalização
ocorreria como um processo natural. Desenvolveu-se então o
conceito de "tina" -sigla de "there is no
alternative" (não há alternativa). Ou seja: esse é o
modelo por meio do qual nós criaríamos o modelo de
desenvolvimento.
Esse modelo virá privar os Estados da sua capacidade de
regulação social, dará novos direitos de propriedade para os
investidores nacionais e internacionais e dará um peso maior às
organizações multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo
Monetário Internacional. Entre as características desse modelo,
o que se dizia é que não havia alternativas.
Folha - Como começa a contestação do
modelo?
Santos - A partir da década de 90, começamos a ver as
consequências excludentes da globalização neoliberal, como o
aumento exponencial da polarização entre ricos e pobres -não
apenas entre países ricos e pobres, mas entre pobres e ricos de
cada país.
Começamos a verificar que, em vários países, passaram a surgir
formas de resistência. Não a resistência do movimento
operário. O que havia era outra coisa: movimentos rurais e
urbanos com alianças internacionais, muitas vezes feitas com uso
da internet, começaram a criar alternativas para resistir aos
efeitos mais excludentes da globalização.
A primeira manifestação pública apareceu em Seattle, em
novembro de 99. Esses movimentos vão, de alguma maneira,
desaguar no primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Nessa altura, muitos dos movimentos afirmam-se contra a
globalização. Eles partem da idéia de que só existe um modelo
de globalização. Mas é um processo lento, por meio do qual
tentamos mostrar que somos a favor de uma globalização
alternativa.
Folha - E o que o sr. chama de
globalização alternativa?
Santos - As alianças entre os diferentes movimentos sociais
e iniciativas que estão resistindo e propondo alternativas
criativas à exclusão social.
A democracia participativa é uma dessas iniciativas. Vemos em
várias partes do mundo -e Porto Alegre é um exemplo-
iniciativas no sentido de produzir novas formas de distribuição
de recursos, que não sejam apenas por cálculo econômico, mas
pelas necessidades sociais das populações.
Há também movimentos de cooperativas que estão emergindo em
diferentes países, os movimentos indígenas e todas as formas
alternativas de produção que eles estão promovendo.
Folha - Por exemplo?
Santos - Na questão do direito de propriedade intelectual
sobre a biodiversidade, por exemplo. É o que chamamos de
bioimperialismo. Essa é a forma mais sinistra por meio da qual
as grandes empresas multinacionais estão se apropriando, na
América Latina, do conhecimento indígena.
As multinacionais vêm com seus técnicos, conversam com os
xamãs, com os homens velhos dessas comunidades, levam as plantas
medicinais e, a partir daí, patenteiam o remédio. Amanhã,
quando o índio quiser comprar o remédio, terá de pagar
royalties. Isso é pilhagem.
Folha - O que o sr. chama de "fair
trade" (comércio justo), em contraposição ao "free
trade" (comércio livre)?
Santos - É uma forma de globalização alternativa de
expressão muito pequena, talvez menos de 0,1% do comércio
mundial, mas que é uma coisa emergente.
Funciona como um comércio em que os produtos foram feitos de
acordo com determinadas características: com salários justos,
em condições ecológicas equilibradas, sem discriminação aos
sindicatos, sem trabalho infantil, sem trabalho escravo.
O comércio justo não olha só para a qualidade do produto, mas
para a qualidade do processo, como foi produzido.
Folha - Existe uma sociedade civil global?
Santos - É aquela formada pelos oprimidos. É o que eu chamo
de sociedade civil estranha e indiferente, é a sociedade dos
excluídos do contrato social.
Alguns grupos jamais estiveram no contrato social, como os
índios. Os trabalhadores estiveram e estão sendo expulsos. As
minorias étnicas não estão nesse contrato social em muitos
países.
Claro que há outra sociedade civil global, formada pelos
executivos e do mercado. A avenida Paulista é um dos grandes
centros da sociedade civil global dominante.
Folha - As ONGs têm legitimidade para
representar a sociedade, apesar de não prestarem conta dos seus
recursos e de suas estruturas hierárquicas?
Santos - As ONGs não podem ser uma maneira de o Estado se
eximir de promover a cidadania. Em segundo lugar, as ONGs têm de
ser genuinamente da sociedade civil, não instrumentos que o
Estado cria. Há ONGs que são braços da CIA. Algumas
primeiras-damas da África estão atarefadas criando esse tipo de
instituição. As ONGs precisam ser democráticas internamente e
prestar contas às comunidades em que atuam.
Folha - A esquerda tradicional, focada no
movimento operário, não foi atropelada por essas novas formas
de organização, pautadas em alianças transnacionais?
Santos - A esquerda, ao contrário da Terceira Via, tem muito
futuro. Só precisa ser reinventada.
A esquerda tradicional foi configurada em duas idéias que hoje
estão em dificuldade: em primeiro lugar foi pautada nos Estados
nacionais. Marx pregava que os trabalhadores do mundo se unissem,
mas quem se uniu foi o capital. Os trabalhadores ganharam
direitos ao nível dos Estados. Quando veio a globalização, a
esquerda não teve resposta.
A outra razão pela qual a esquerda ficou numa situação de
deficiência é porque, na tradição ocidental, o trabalho
sempre foi a grande via de acesso à cidadania. Para ter acesso
à seguridade social e a outros direitos, era preciso ter
emprego. Hoje o trabalho não dá mais cidadania. É realizado
sem condições e sem direitos.
No capitalismo que vigorou até a década de 80, havia mercados
nacionais de trabalho, ainda que segmentados. O trabalho hoje é
um recurso global, mas não há um mercado global de trabalho.
Há liberdade de movimento para produtos e serviços, mas não
para os trabalhadores.
Sou adepto de fronteiras abertas para a imigração. A posição
é radical, mas penso que na Europa é necessário defendê-la.
Não temos direito a privilégios quando o resto do mundo morre
de fome.
Folha - O sr. defende a desobediência civil
como forma de luta por determinados direitos. Isso não ameaça a
democracia?
Santos - Não. Os momentos fortes da história da democracia
não são discussões no Parlamento. São momentos em que grupos
que estão excluídos lutam pela inclusão com medidas que,
muitas vezes, são ilegais.
Se as greves não são permitidas, fazem greves. Se as marchas
não são permitidas, fazem marchas. Foi o que aconteceu com o
movimento negro nos Estados Unidos. Se era proibido ir a um
restaurante, negros entravam e ficavam lá conversando. Era uma
ação ilegal, mas foi assim que nasceu o movimento pelos
direitos civis.
Folha - A globalização alternativa não é
uma utopia?
Santos - Sim. Mas eu cito sempre Sartre nessa questão: todas
as idéias, antes de serem realizadas, parecem utópicas..(GABRIELA
ATHIAS, DA REPORTAGEM LOCAL E DANIEL BRAMATT, ,
EDITOR-ADJUNTO DE COTIDIANO)(©Folha de São Paulo)