NOTÍCIAS - Brasil

02/06/2004 -

sem título

Um morto em conflito de terra em Anapu

EMBOSCADA NA FAZENDA SANTA MARIA DEIXA AINDA UMA PESSOA FERIDA NO SUDOESTE DO PARÁ

BELÉM (AE) - Um empregado da Fazenda Santa Maria, em Anapu, no sudoeste do Pará, foi morto no domingo (30), em mais um crime pela posse da terra. Na emboscada, preparada por mais de 40 homens armados, morreu José Antonio Nascimento, de 36 anos, e ficou gravemente ferido o gerente da fazenda, Douglas Formiga. Nascimento foi morto com vários tiros no peito. Formiga foi levado ainda ontem para Altamira, a 170 km de Anapu, onde deveria ser operado.

Em quatro meses, cinco pessoas foram mortas na luta pela posse da terra em Anapu. Na semana passada, deputados ligados à CPI da Terra, da Câmara Federal, estiveram no município colhendo informações sobre a violência agrária na região.

A polícia abriu inquérito para apurar o caso, mas ainda não conseguiu prender nenhum dos acusados. Três empregados da Santa Maria, do paulista Paulo Marques, que sobreviveram à tocaia, denunciaram ao delegado Pedro Monteiro que seis homens pararam o grupo de cinco empregados numa estrada a 500 metros da sede da fazenda, dizendo que tinham em seu poder uma carta da missionária norte-americana Dorothy Stang, autorizando-os a matar quem fosse encontrado dentro da propriedade.

Tiros na mata

Em seguida, vários homens começaram a atirar de dentro da mata contra os empregados. Nascimento foi o primeiro a ser atingido e morreu na hora. Formiga, gravemente ferido, fingiu estar morto, enquanto os outros três empregados fugiam pela mata sob balas.

"Esse pessoal que fez a emboscada na Santa Maria é ligado à irmã Dorothy. Testemunhas disseram que eles estariam escondidos dentro da casa dela", diz Monteiro. Irmã Dorothy, como é conhecida em Anapu, é uma religiosa de 73 anos que criou no município o primeiro projeto de desenvolvimento sustentado em terras do Incra para pequenas comunidades de lavradores no Pará. Por isso passou a ser odiada por madeireiros e fazendeiros.

Ela não estranha a acusação feita por Monteiro, afirmando que os grandes latifundiários e assassinos de trabalhadores rurais em toda a região da Terra do Meio recebem "total proteção" da polícia. "Os trabalhadores são as verdadeiras vítimas dessa violência toda, porque são expulsos de seus lotes e, quando resistem, acabam torturados e mortos", rebate Dorothy.

Pará responde por 40% das mortes em decorrência de disputas pela terra

BRASÍLIA (Agência Brasil)- A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a estrutura fundiária no país constatou, em visita ao Pará, que o quadro agrário no Estado é bastante grave. De acordo com o relator da CPI, deputado João Alfredo (PT-CE), o Pará é responsável por 40% das mortes pela disputa de terra no país e por 52% das denúncias de trabalho escravo principalmente em madeireiras e empresas de pecuária.

Segundo a missionária da Pastoral da Terra, Doroty Stang, o quadro de impunidade agravou os conflitos. Para ela, que há 20 anos atua na região, os grileiros não respeitam as terras já demarcadas, uma vez que as promessas de ações no Estado não vêm sendo cumpridas.

Durante audiência pública da CPI da terra com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, o deputado João Alfredo sugeriu a criação de uma força-tarefa formada por Ministério Público e a Polícia Federal para atuar na região. O ministro avalia que a proposta pode ser estudada pelo governo e que a violência no Pará é inaceitável: "Há uma determinação e empenho de que todas as estruturas do governo federal trabalhem de forma cada vez mais articuladas com os governos estaduais, polícia federal e os ministérios públicos estaduais. Obviamente há uma expectativa grande de que nós possamos zerar este padrão de violência que é inaceitável".

A CPI da terra vai pedir ao Ministério da Justiça e à Secretaria Especial de Direitos Humanos proteção às testemunhas que relataram os assassinatos na região. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que 759 pessoas já morreram no Pará em conflitos de terra.

Polícia conhece forma

Para o delegado, a forma de atuação do bando é a mesma do grupo chefiado pelo pistoleiro conhecido por Théo. Em março passado, um segurança da empresa Marca foi assassinado com vários tiros e outros três ficaram feridos durante uma emboscada na estrada que dá acesso à fazenda Rio Anapu, do pecuarista Yoaquim Petrola.

A fazenda fica perto da Santa Maria e faz parte da área reivindicada por irmã Dorothy para o assentamento das famílias de lavradores de seu projeto de desenvolvimento sustentado, o PDS.

Só no Pará, de 1964 a 2000, foram assassinados 717 trabalhadores, lideranças sindicais, religiosas e políticas. O mais grave é que só em 183 casos foram abertos inquéritos policiais e só 113 deles deram origem a processos que tramitaram ou estão tramitando na Justiça.

Nos últimos anos foram realizados os júris populares ou emitidas sentenças de impronúncia, arquivamento ou absolvição em 18 casos, isto é, só 2,56% dos crimes foram julgados.

Força-tarefa

O deputado estadual Airton Faleiro (PT) cobrou dos governos federal e estadual, através de ofício remetido ontem para diversas autoridades (ver relação abaixo), uma ação mais efetiva do Estado na região da Transamazônica, a fim de que mortes como ocorreram em Anapu nas últimas 48 horas possam ser evitadas. O parlamentar lembra que em pelo menos quatro reuniões realizadas neste sentido o governo se comprometeu em articular uma força-tarefa para região. "Os reflexos dessa inércia por parte do Estado são novas mortes surgindo na região Transamazônica e com ela a crescente instabilidade social e a previsão de novos conflitos", diz Faleiro.dp

Fonte: Diário do Pará