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Um morto em
conflito de terra em Anapu
EMBOSCADA NA FAZENDA SANTA MARIA
DEIXA AINDA UMA PESSOA FERIDA NO SUDOESTE DO PARÁ
BELÉM (AE) - Um empregado da
Fazenda Santa Maria, em Anapu, no sudoeste do Pará, foi morto no
domingo (30), em mais um crime pela posse da terra. Na emboscada,
preparada por mais de 40 homens armados, morreu José Antonio
Nascimento, de 36 anos, e ficou gravemente ferido o gerente da
fazenda, Douglas Formiga. Nascimento foi morto com vários tiros
no peito. Formiga foi levado ainda ontem para Altamira, a 170 km
de Anapu, onde deveria ser operado.
Em quatro meses, cinco pessoas
foram mortas na luta pela posse da terra em Anapu. Na semana
passada, deputados ligados à CPI da Terra, da Câmara Federal,
estiveram no município colhendo informações sobre a violência
agrária na região.
A polícia abriu inquérito para
apurar o caso, mas ainda não conseguiu prender nenhum dos
acusados. Três empregados da Santa Maria, do paulista Paulo
Marques, que sobreviveram à tocaia, denunciaram ao delegado
Pedro Monteiro que seis homens pararam o grupo de cinco
empregados numa estrada a 500 metros da sede da fazenda, dizendo
que tinham em seu poder uma carta da missionária norte-americana
Dorothy Stang, autorizando-os a matar quem fosse encontrado
dentro da propriedade.
Tiros na mata
Em seguida, vários homens
começaram a atirar de dentro da mata contra os empregados.
Nascimento foi o primeiro a ser atingido e morreu na hora.
Formiga, gravemente ferido, fingiu estar morto, enquanto os
outros três empregados fugiam pela mata sob balas.
"Esse pessoal que fez a
emboscada na Santa Maria é ligado à irmã Dorothy. Testemunhas
disseram que eles estariam escondidos dentro da casa dela",
diz Monteiro. Irmã Dorothy, como é conhecida em Anapu, é uma
religiosa de 73 anos que criou no município o primeiro projeto
de desenvolvimento sustentado em terras do Incra para pequenas
comunidades de lavradores no Pará. Por isso passou a ser odiada
por madeireiros e fazendeiros.
Ela não estranha a acusação
feita por Monteiro, afirmando que os grandes latifundiários e
assassinos de trabalhadores rurais em toda a região da Terra do
Meio recebem "total proteção" da polícia. "Os
trabalhadores são as verdadeiras vítimas dessa violência toda,
porque são expulsos de seus lotes e, quando resistem, acabam
torturados e mortos", rebate Dorothy.
Pará responde por 40% das
mortes em decorrência de disputas pela terra
BRASÍLIA (Agência Brasil)- A
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a
estrutura fundiária no país constatou, em visita ao Pará, que
o quadro agrário no Estado é bastante grave. De acordo com o
relator da CPI, deputado João Alfredo (PT-CE), o Pará é
responsável por 40% das mortes pela disputa de terra no país e
por 52% das denúncias de trabalho escravo principalmente em
madeireiras e empresas de pecuária.
Segundo a missionária da
Pastoral da Terra, Doroty Stang, o quadro de impunidade agravou
os conflitos. Para ela, que há 20 anos atua na região, os
grileiros não respeitam as terras já demarcadas, uma vez que as
promessas de ações no Estado não vêm sendo cumpridas.
Durante audiência pública da
CPI da terra com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel
Rossetto, o deputado João Alfredo sugeriu a criação de uma
força-tarefa formada por Ministério Público e a Polícia
Federal para atuar na região. O ministro avalia que a proposta
pode ser estudada pelo governo e que a violência no Pará é
inaceitável: "Há uma determinação e empenho de que todas
as estruturas do governo federal trabalhem de forma cada vez mais
articuladas com os governos estaduais, polícia federal e os
ministérios públicos estaduais. Obviamente há uma expectativa
grande de que nós possamos zerar este padrão de violência que
é inaceitável".
A CPI da terra vai pedir ao
Ministério da Justiça e à Secretaria Especial de Direitos
Humanos proteção às testemunhas que relataram os assassinatos
na região. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam
que 759 pessoas já morreram no Pará em conflitos de terra.
Polícia conhece forma
Para o delegado, a forma de
atuação do bando é a mesma do grupo chefiado pelo pistoleiro
conhecido por Théo. Em março passado, um segurança da empresa
Marca foi assassinado com vários tiros e outros três ficaram
feridos durante uma emboscada na estrada que dá acesso à
fazenda Rio Anapu, do pecuarista Yoaquim Petrola.
A fazenda fica perto da Santa
Maria e faz parte da área reivindicada por irmã Dorothy para o
assentamento das famílias de lavradores de seu projeto de
desenvolvimento sustentado, o PDS.
Só no Pará, de 1964 a 2000,
foram assassinados 717 trabalhadores, lideranças sindicais,
religiosas e políticas. O mais grave é que só em 183 casos
foram abertos inquéritos policiais e só 113 deles deram origem
a processos que tramitaram ou estão tramitando na Justiça.
Nos últimos anos foram
realizados os júris populares ou emitidas sentenças de
impronúncia, arquivamento ou absolvição em 18 casos, isto é,
só 2,56% dos crimes foram julgados.
Força-tarefa
O deputado estadual Airton
Faleiro (PT) cobrou dos governos federal e estadual, através de
ofício remetido ontem para diversas autoridades (ver relação
abaixo), uma ação mais efetiva do Estado na região da
Transamazônica, a fim de que mortes como ocorreram em Anapu nas
últimas 48 horas possam ser evitadas. O parlamentar lembra que
em pelo menos quatro reuniões realizadas neste sentido o governo
se comprometeu em articular uma força-tarefa para região.
"Os reflexos dessa inércia por parte do Estado são novas
mortes surgindo na região Transamazônica e com ela a crescente
instabilidade social e a previsão de novos conflitos", diz
Faleiro.dp