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07/11/2004 -

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Volta Redonda recorda mortes de metalúrgicos na greve de 88

Acontecimento, seguido de atentado contra memorial, marcou história do sindicalismo no país

André Aquino e Dicler Simões

Bombas, confrontos, exército nas ruas, feridos e mortes. Este cenário não é da Guerra no Iraque deste ano, mas o retrato deixado pela década de 80 em Volta Redonda: a Greve de 88 da CSN. Hoje completam-se 16 anos do início da mobilização e na próxima terça-feira, dia 9, o aniversário da morte dos três operários dentro da Usina Presidente Vargas, após o confronto com as Forças Armadas. São eles: Carlos Augusto Barroso, de 19 anos, com o crânio esmagado; Walmir de Freitas, de 27 anos, atingido pelas costas; e Willian Fernandes, de 22 anos, com uma bala no pescoço. A greve, que durou 17 dias (7 a 24 de novembro), teve como líder o sindicalista Juarez Antunes e o movimento teve também repercussões nacionais e internacionais.

O responsável pela invasão do Exército, no entanto, não foi punido pela Justiça; ao contrário, hoje faz parte do primeiro escalão das Forças Armadas. Em novembro de 1999, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) nomeou o general José Luiz Lopes da Silva como ministro do Superior Tribunal Militar (STM), órgão responsável pelo julgamento de processos contra militares. A indicação do general foi aprovada pelo Senado, com a mobilização de toda a bancada governista da época. Lopes afirmou, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em outubro de 1999, que a invasão na companhia, "sob o ponto de vista militar, foi plenamente bem-sucedida".

No lado do líder da greve havia um interesse a mais do que as próprias reivindicações trabalhistas. Naquela época, Juarez estava concorrendo o cargo do prefeito e em toda a movimentação também havia o cunho eleitoral. O ex-assessor de Juarez, Luiz de Oliveira Rodrigues, o Luizinho, revela hoje que havia dois grupos ligados a ele com opiniões diferentes. O primeiro, que era a favor da greve, dizia que o movimento grevista reforçaria a campanha eleitoral de Juarez. Naquele momento, Juarez estava 5% atrás do seu concorrente, Nelson Gonçalves, e com a greve o sindicalista conseguiria ultrapassá-lo.

- Era tudo ou nada. A gente estava perdendo força dentro do sindicato (dos Metalúrgicos do Sul Fluminense), pois não estávamos conseguindo as reivindicações dos trabalhadores. Isso estava refletindo na campanha eleitoral - afirma Luizinho, que conseguiu, junto com o também assessor Luiz Albano, convencer Juarez para articular a greve entre os operários.

Já o ex-sindicalista Colombo Vieira, também ligado ao Juarez, disse que a coordenação de campanha de Juarez era contra a greve porque o movimento poderia prejudicá-lo na campanha eleitoral. "Mas chegou num ponto que era inevitável a movimentação", diz Colombo, que conheceu o líder operário no início da década de 80.

Início da Greve

Em 4 de novembro de 1988, Juarez e sindicalistas convocam uma assembléia em frente do Escritório Central da CSN, na Vila Santa Cecília, para apresentar as dez reivindicações dos operários da CSN. Entre outros, estavam: reajuste salarial com base no índice do Dieese; reposição salarial de 26,06% do expurgo da inflação; jornada de trabalho de 40 horas semanais; readmissão dos demitidos em agosto de 1987; reconhecimentos oficial dos representantes sindicais eleitos; e a divulgação do Sistema de Classificação de Cargos e Salários.

Segundo Luizinho, com a presença de quase oito mil trabalhadores, a decisão foi para começar a greve na segunda-feira, dia 7. No dia marcado, a diretoria do sindicato invade a usina para impedir a saída dos trabalhadores dentro da Companhia. Daí se deu o primeiro confronto entre os sindicalistas e os policiais militares. A PM tentou impedir a entrada do carro de som do sindicato dentro da usina. De acordo com Luizinho, uma discussão entre um capitão da PM e Luiz Albano resultou num confronto, o qual os grevistas venceram e conseguiram entrar na Companhia. "Me lembro que um grevista conseguiu retirar até um revólver do PM. Dois dias depois, devolvi a arma aos policiais", relata Luizinho, que hoje continua atuando no Sindicato dos Metalúrgicos.

Autorização da entrada do Exército

Na época, o juiz da 3ª Vara Cível de Volta Redonda, Moisés Cohen, expediu, a pedido da CSN, uma medida liminar de reintegração de posse e a intervenção do Exército para dar uma solução rápida à invasão da usina. Na expectativa da vinda das Forças Armadas, Albano sugeriu aos operários que se abriguem dentro da aciaria. Mas o confronto já havia começado na Praça Brasil. Mais de mil soldados e PMs alinharam-se para dispersar uma multidão de quase duas mil pessoas. Em menos de 40 minutos de pancadaria, 40 pessoas ficaram feridas, mas a tragédia ainda não havia começado.

Os soldados, que tinham a ordem de desalojar três mil operários de dentro da CSN, encaminharam-se para a entrada da fábrica com equipamentos de guerra como o blindado Cascavel, fuzis automáticos e bombas de gás lacrimogêneo.

A hora da morte

Às 21h30min do dia 9 de novembro de 1988 uma parte do Exército recebeu a ordem de atirar. A primeira morte do dia foi a de Walmir, atingido pelo um tiro de fuzil nas costas quando saia do refeitório. Socorrido por amigos, chegou ao Hospital da CSN (hoje o Vita) com vida, mas morreu 15 minutos depois. Baleado na nuca, William tombou dentro da aciaria. Ele entrou no hospital junto com Walmir e morreu cinco minutos depois. Mas a morte mais misteriosa foi de Barroso, que havia deixado o refeitório às 21h 30min e sumiu no caminho da aciaria. Às 23 horas, ele apareceu morto, no hospital, com o crânio arrebentado por pancadas. Uma centena de feridos completa o quadro trágico do dia 9.

- Interessante neste fato foi que eu e Albano conseguimos retirar as roupas de Walmir e Willian antes de serem levados ao hospital e guardamos no carro de Albano. Não serviria como prova do crime, mas seria um símbolo da luta. Mas, na mesma noite do crime, o veículo de Abano foi roubado e apareceu na delegacia sem as roupas dos dois - revelou hoje Luizinho.

A violência do Exército, no entanto, contribuiu para a radicalização do movimento grevista. Os operários decidiram em assembléia em manter a greve no dia 10 de novembro. No dia seguinte, o general Lopes, mesmo lamentando a morte dos três, afirmara que elas deveriam "servir de exemplo" aos demais grevistas. Lopes revela, no mesmo dia, que "para não desmoralizar as tropas, utilizou bombas e tiros de festim e, finalmente, usou tiros de verdade".

Outro fato que marcou a Greve de 88 foi o abraço simbólico na Usina Presidente Vargas em 21 de novembro, organizado por Luizinho. Pelo menos 20 mil pessoas participaram do evento, que começou na entrada da usina da Vila Santa Cecília. O cordão humano passou pelo Conforto, Ponte Alta, Belmonte, Beira Rio, Vila Mury, Aterrado e Centro. "Foi impressionante a participação não só dos operários, mas da população da cidade", relembra Luizinho.

Fim da Greve

A greve prosseguiu até o dia 23 de novembro, quando foi realizada a última assembléia, em frente do Escritório Central, na Vila. Abano abre os trabalhos chamando, um a um, os trabalhadores mortos no confronto e os operários respondendo: "Presente!". Juarez Antunes, na assembléia, declara: "Preparar uma greve é acender uma fogueira: assembléia, reuniões, porta de fábrica". Em seguida, ele lembra que "depois que esta fogueira está quente, e que você conquistou o máximo de temperatura, aí é hora de tirar a lenha da fogueira". A greve termina em 24 de novembro com a retirada das tropas do Exército da Usina Presidente Vargas. Em 1988, Juarez é eleito o prefeito de Volta Redonda com mais de 50 mil votos.

1989: Morre Juarez e memorial Nove de novembro é destruído

O ano seguinte à Greve 88 ainda foi marcado pelo violência. O líder sindicalista e prefeito Juarez Antunes, líder da greve, morreu num misterioso acidente automobilístico até hoje não resolvido em fevereiro de 1989. Junto a isso, no dia 2 de maio daquele ano, uma bomba explodiu no Memorial Nove de Novembro, uma homenagem aos três operários mortos.

O prefeito, que estava há 51 dias no cargo, seguia para Brasília, onde entregaria a chave do apartamento que usava como parlamentar, quando a Parati onde ele estava foi fechada bruscamente por caminhão. Desgovernado, o veículo bateu numa árvore, conforme apurou a perícia da cidade mineira de Felixlândia, onde ocorreu o acidente. "Não acredito que foi um acidente", afirmou o ex-assessor de Juarez Colombo Vieira.

- Falei com ele que era para ir de avião. Mas preferiu de carro. Juarez me chamou para viajar, mas eu não quis - disse Luiz Oliveira Rodrigues, o Luizinho, ex-assessor de Juarez.

O então bispo de Volta Redonda, dom Waldyr Calherios, revelou que ele e Juarez estavam ameaçados de morte. Segundo ele, quem estava designado para matá-los era um policial. "A morte de Juarez foi em conseqüência de sua ação política e as atitudes tomadas a favor dos trabalhadores. Foi assassinato", disse dom Waldyr, em entrevista ao DIÁRIO DO VALE em março de 1999. O bispo, durante toda a semana passada, estava no Nordeste e não foi localizado pela equipe de reportagem do DIÁRIO. No enterro de Juarez, entre outras autoridades, estavam: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que era presidente do PT na época, e o presidente do PDT naquele ano, Leonel Brizola.

Memorial Nove de Novembro

Em primeiro de maio de 1989, foi inaugurado em Volta Redonda o memorial a William, Valmir e Barroso, um projeto do famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Na madrugada do dia seguinte, um atentado destruiu o monumento. As ondas de choque da explosão, um símbolo dos assassinatos dos operários, estilhaçaram os vidros a 300 metros do local. Uma segunda carga que não detonara foi encontrada próxima aos destroços.

A participação do Exército no atentado só foi revelada em 1999. O ex-capitão do Exército Dalton Roberto de Melo denunciou o general Álvaro de Souza Pinheiro por ser o mandante do crime. Até hoje os destroços do Memorial Nove de Novembro estão na Praça Juarez Antunes, na Vila, a pedido de Oscar Niemeyer.

Relembrando: Memorial foi mantido como ficou após atentado a pedido de Niemeyer

Fernando Siqueira

 

Fonte: Diário do Vale