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Volta Redonda
recorda mortes de metalúrgicos na greve de 88
Acontecimento, seguido de
atentado contra memorial, marcou história do sindicalismo no
país
André Aquino e Dicler Simões
Bombas, confrontos, exército
nas ruas, feridos e mortes. Este cenário não é da Guerra no
Iraque deste ano, mas o retrato deixado pela década de 80 em
Volta Redonda: a Greve de 88 da CSN. Hoje completam-se 16 anos do
início da mobilização e na próxima terça-feira, dia 9, o
aniversário da morte dos três operários dentro da Usina
Presidente Vargas, após o confronto com as Forças Armadas. São
eles: Carlos Augusto Barroso, de 19 anos, com o crânio esmagado;
Walmir de Freitas, de 27 anos, atingido pelas costas; e Willian
Fernandes, de 22 anos, com uma bala no pescoço. A greve, que
durou 17 dias (7 a 24 de novembro), teve como líder o
sindicalista Juarez Antunes e o movimento teve também
repercussões nacionais e internacionais.
O responsável pela invasão do
Exército, no entanto, não foi punido pela Justiça; ao
contrário, hoje faz parte do primeiro escalão das Forças
Armadas. Em novembro de 1999, o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso (PSDB) nomeou o general José Luiz Lopes da Silva como
ministro do Superior Tribunal Militar (STM), órgão responsável
pelo julgamento de processos contra militares. A indicação do
general foi aprovada pelo Senado, com a mobilização de toda a
bancada governista da época. Lopes afirmou, em entrevista ao
jornal O Estado de São Paulo em outubro de 1999, que a invasão
na companhia, "sob o ponto de vista militar, foi plenamente
bem-sucedida".
No lado do líder da greve havia
um interesse a mais do que as próprias reivindicações
trabalhistas. Naquela época, Juarez estava concorrendo o cargo
do prefeito e em toda a movimentação também havia o cunho
eleitoral. O ex-assessor de Juarez, Luiz de Oliveira Rodrigues, o
Luizinho, revela hoje que havia dois grupos ligados a ele com
opiniões diferentes. O primeiro, que era a favor da greve, dizia
que o movimento grevista reforçaria a campanha eleitoral de
Juarez. Naquele momento, Juarez estava 5% atrás do seu
concorrente, Nelson Gonçalves, e com a greve o sindicalista
conseguiria ultrapassá-lo.
- Era tudo ou nada. A gente
estava perdendo força dentro do sindicato (dos Metalúrgicos do
Sul Fluminense), pois não estávamos conseguindo as
reivindicações dos trabalhadores. Isso estava refletindo na
campanha eleitoral - afirma Luizinho, que conseguiu, junto com o
também assessor Luiz Albano, convencer Juarez para articular a
greve entre os operários.
Já o ex-sindicalista Colombo
Vieira, também ligado ao Juarez, disse que a coordenação de
campanha de Juarez era contra a greve porque o movimento poderia
prejudicá-lo na campanha eleitoral. "Mas chegou num ponto
que era inevitável a movimentação", diz Colombo, que
conheceu o líder operário no início da década de 80.
Início da Greve
Em 4 de novembro de 1988, Juarez
e sindicalistas convocam uma assembléia em frente do Escritório
Central da CSN, na Vila Santa Cecília, para apresentar as dez
reivindicações dos operários da CSN. Entre outros, estavam:
reajuste salarial com base no índice do Dieese; reposição
salarial de 26,06% do expurgo da inflação; jornada de trabalho
de 40 horas semanais; readmissão dos demitidos em agosto de
1987; reconhecimentos oficial dos representantes sindicais
eleitos; e a divulgação do Sistema de Classificação de Cargos
e Salários.
Segundo Luizinho, com a
presença de quase oito mil trabalhadores, a decisão foi para
começar a greve na segunda-feira, dia 7. No dia marcado, a
diretoria do sindicato invade a usina para impedir a saída dos
trabalhadores dentro da Companhia. Daí se deu o primeiro
confronto entre os sindicalistas e os policiais militares. A PM
tentou impedir a entrada do carro de som do sindicato dentro da
usina. De acordo com Luizinho, uma discussão entre um capitão
da PM e Luiz Albano resultou num confronto, o qual os grevistas
venceram e conseguiram entrar na Companhia. "Me lembro que
um grevista conseguiu retirar até um revólver do PM. Dois dias
depois, devolvi a arma aos policiais", relata Luizinho, que
hoje continua atuando no Sindicato dos Metalúrgicos.
Autorização da entrada do
Exército
Na época, o juiz da 3ª Vara
Cível de Volta Redonda, Moisés Cohen, expediu, a pedido da CSN,
uma medida liminar de reintegração de posse e a intervenção
do Exército para dar uma solução rápida à invasão da usina.
Na expectativa da vinda das Forças Armadas, Albano sugeriu aos
operários que se abriguem dentro da aciaria. Mas o confronto já
havia começado na Praça Brasil. Mais de mil soldados e PMs
alinharam-se para dispersar uma multidão de quase duas mil
pessoas. Em menos de 40 minutos de pancadaria, 40 pessoas ficaram
feridas, mas a tragédia ainda não havia começado.
Os soldados, que tinham a ordem
de desalojar três mil operários de dentro da CSN,
encaminharam-se para a entrada da fábrica com equipamentos de
guerra como o blindado Cascavel, fuzis automáticos e bombas de
gás lacrimogêneo.
A hora da morte
Às 21h30min do dia 9 de
novembro de 1988 uma parte do Exército recebeu a ordem de
atirar. A primeira morte do dia foi a de Walmir, atingido pelo um
tiro de fuzil nas costas quando saia do refeitório. Socorrido
por amigos, chegou ao Hospital da CSN (hoje o Vita) com vida, mas
morreu 15 minutos depois. Baleado na nuca, William tombou dentro
da aciaria. Ele entrou no hospital junto com Walmir e morreu
cinco minutos depois. Mas a morte mais misteriosa foi de Barroso,
que havia deixado o refeitório às 21h 30min e sumiu no caminho
da aciaria. Às 23 horas, ele apareceu morto, no hospital, com o
crânio arrebentado por pancadas. Uma centena de feridos completa
o quadro trágico do dia 9.
- Interessante neste fato foi
que eu e Albano conseguimos retirar as roupas de Walmir e Willian
antes de serem levados ao hospital e guardamos no carro de
Albano. Não serviria como prova do crime, mas seria um símbolo
da luta. Mas, na mesma noite do crime, o veículo de Abano foi
roubado e apareceu na delegacia sem as roupas dos dois - revelou
hoje Luizinho.
A violência do Exército, no
entanto, contribuiu para a radicalização do movimento grevista.
Os operários decidiram em assembléia em manter a greve no dia
10 de novembro. No dia seguinte, o general Lopes, mesmo
lamentando a morte dos três, afirmara que elas deveriam
"servir de exemplo" aos demais grevistas. Lopes revela,
no mesmo dia, que "para não desmoralizar as tropas,
utilizou bombas e tiros de festim e, finalmente, usou tiros de
verdade".
Outro fato que marcou a Greve de
88 foi o abraço simbólico na Usina Presidente Vargas em 21 de
novembro, organizado por Luizinho. Pelo menos 20 mil pessoas
participaram do evento, que começou na entrada da usina da Vila
Santa Cecília. O cordão humano passou pelo Conforto, Ponte
Alta, Belmonte, Beira Rio, Vila Mury, Aterrado e Centro.
"Foi impressionante a participação não só dos
operários, mas da população da cidade", relembra
Luizinho.
Fim da Greve
A greve prosseguiu até o dia 23
de novembro, quando foi realizada a última assembléia, em
frente do Escritório Central, na Vila. Abano abre os trabalhos
chamando, um a um, os trabalhadores mortos no confronto e os
operários respondendo: "Presente!". Juarez Antunes, na
assembléia, declara: "Preparar uma greve é acender uma
fogueira: assembléia, reuniões, porta de fábrica". Em
seguida, ele lembra que "depois que esta fogueira está
quente, e que você conquistou o máximo de temperatura, aí é
hora de tirar a lenha da fogueira". A greve termina em 24 de
novembro com a retirada das tropas do Exército da Usina
Presidente Vargas. Em 1988, Juarez é eleito o prefeito de Volta
Redonda com mais de 50 mil votos.
1989: Morre Juarez e memorial
Nove de novembro é destruído
O ano seguinte à Greve 88 ainda
foi marcado pelo violência. O líder sindicalista e prefeito
Juarez Antunes, líder da greve, morreu num misterioso acidente
automobilístico até hoje não resolvido em fevereiro de 1989.
Junto a isso, no dia 2 de maio daquele ano, uma bomba explodiu no
Memorial Nove de Novembro, uma homenagem aos três operários
mortos.
O prefeito, que estava há 51
dias no cargo, seguia para Brasília, onde entregaria a chave do
apartamento que usava como parlamentar, quando a Parati onde ele
estava foi fechada bruscamente por caminhão. Desgovernado, o
veículo bateu numa árvore, conforme apurou a perícia da cidade
mineira de Felixlândia, onde ocorreu o acidente. "Não
acredito que foi um acidente", afirmou o ex-assessor de
Juarez Colombo Vieira.
- Falei com ele que era para ir
de avião. Mas preferiu de carro. Juarez me chamou para viajar,
mas eu não quis - disse Luiz Oliveira Rodrigues, o Luizinho,
ex-assessor de Juarez.
O então bispo de Volta Redonda,
dom Waldyr Calherios, revelou que ele e Juarez estavam ameaçados
de morte. Segundo ele, quem estava designado para matá-los era
um policial. "A morte de Juarez foi em conseqüência de sua
ação política e as atitudes tomadas a favor dos trabalhadores.
Foi assassinato", disse dom Waldyr, em entrevista ao DIÁRIO
DO VALE em março de 1999. O bispo, durante toda a semana
passada, estava no Nordeste e não foi localizado pela equipe de
reportagem do DIÁRIO. No enterro de Juarez, entre outras
autoridades, estavam: o atual presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, que era presidente do PT na época, e o presidente do PDT
naquele ano, Leonel Brizola.
Memorial Nove de Novembro
Em primeiro de maio de 1989, foi
inaugurado em Volta Redonda o memorial a William, Valmir e
Barroso, um projeto do famoso arquiteto brasileiro Oscar
Niemeyer. Na madrugada do dia seguinte, um atentado destruiu o
monumento. As ondas de choque da explosão, um símbolo dos
assassinatos dos operários, estilhaçaram os vidros a 300 metros
do local. Uma segunda carga que não detonara foi encontrada
próxima aos destroços.
A participação do Exército no
atentado só foi revelada em 1999. O ex-capitão do Exército
Dalton Roberto de Melo denunciou o general Álvaro de Souza
Pinheiro por ser o mandante do crime. Até hoje os destroços do
Memorial Nove de Novembro estão na Praça Juarez Antunes, na
Vila, a pedido de Oscar Niemeyer.
Relembrando: Memorial foi
mantido como ficou após atentado a pedido de Niemeyer
Fernando Siqueira