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26/02/2005 -

sem título

Vidão de sindicalista

Avião, lancha, carro de luxo, casa na praia... É assim que vivem alguns dos

principais dirigentes sindicais brasileiros, que há décadas se mantêm no poder

Ronaldo França e Marcelo Carneiro

O salário médio de um empregado do comércio, nas grandes cidades brasileiras, não passa de 800 reais. Estima-se que o setor empregue quase 6 milhões de pessoas. São, em geral, homens com idade entre 25 e 40 anos, com ensino básico incompleto e submetidos a jornadas de trabalho superiores às de outros setores da economia. Há, porém, uma casta de comerciários que não tem do que reclamar. Ela é formada por presidentes e diretores de sindicatos. Um peixe gordo da categoria é Otton da Costa Mata Roma, vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro. Ele é filho de Luisant Mata Roma, que há 36 anos preside a entidade. Aos 41 anos, é dono de dois aviões, um helicóptero e de uma frota que inclui um caminhão, dois carros e uma motocicleta. Roma é um dos expoentes de um tipo de distorção que é a marca do sindicalismo brasileiro. Um sindicalismo que formou líderes sérios como o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mas no qual reinam o monopólio e a falta de transparência na gestão dos recursos. Nesta semana, o Brasil dará o primeiro passo para acabar com esses privilégios. Chega à Câmara o projeto de lei da reforma sindical. O projeto altera pontos nevrálgicos da lei atual, um texto fóssil inspirado no fascismo de Mussolini.

O texto vai alterar uma estrutura que não diz respeito apenas aos sindicatos. As distorções da estrutura sindical brasileira contribuem para um dos maiores problemas do país. A Justiça do Trabalho recebe, todos os anos, 2 milhões de novos processos para julgar, o que lota os tribunais, consome recursos do Estado, inferniza a vida de empresários e trabalhadores e acirra a já sufocante instabilidade jurídica brasileira, contribuindo para um ambiente de incerteza que inibe e retrai investimentos. É o Brasil que paga a conta de um sistema que permite a existência de representações de fachada – como o inacreditável Sindicato dos Condôminos de Campinas – e acordos coletivos pouco transparentes, além de manter na legalidade a rentável indústria da picaretagem sindical. Hoje, todos os trabalhadores são obrigados a pagar contribuições, sejam ou não sindicalizados, sem que os dirigentes precisem mover uma palha em favor de sua categoria profissional. Pelo novo projeto de lei, o sindicato só poderá cobrar de quem efetivamente se filiar ou quando sua ação de negociação com os patrões produzir resultados reais. Outra mudança dá-se no critério para formação de novos sindicatos. Só poderão existir entidades que tenham em seu quadro de associados 20% da categoria profissional. A reforma também trará mais transparência às contas, cuja fiscalização hoje inexiste, e regulamentará o processo eleitoral, uma arapuca que permite aos dirigentes se perpetuarem nos cargos para manter seus privilégios.

E como se perpetuam. Paulo Fernandes Lucania, 65 anos, presidente da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo, é um exímio negociador. Nas últimas décadas obteve ganhos significativos para sua rotina pessoal. Circula pelos céus do país a bordo de um avião King Air, para nove passageiros. Benefício que nem mesmo diretores de algumas das maiores empresas nacionais conseguem desfrutar. Eventualmente o utiliza para voar até o litoral sul do estado, em Praia Grande, onde a federação mantém uma colônia de férias com padrão de um hotel quatro-estrelas. Todos os comerciários podem utilizá-la. Só não têm acesso à suíte presidencial. Somente Lucania e seus convidados podem entrar no aposento de sete cômodos, com sala de vídeo, suíte para hóspedes, hidromassagem, sala de estar e todos os mimos que a vida de dirigente sindical pode oferecer.

A atual estrutura dá margem a que toda essa mordomia seja possível sem que se precise recorrer a ilegalidades. Ainda assim, causa estranheza como alguns sindicalistas conseguem reunir patrimônios tão polpudos. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Sérgio Butka, concorreu em 2002 a uma vaga na Câmara dos Deputados e declarou ao Tribunal Regional Eleitoral ter em seu nome sete imóveis. Além deles, tem caminhonete off-road, lancha e motocicleta. Bens que não estão ao alcance de um metalúrgico que não seja dirigente sindical. A idéia de usar um sindicato para benefícios pessoais não é nova. Em vários países o sindicalismo descambou para a malandragem. O exemplo célebre vem dos Estados Unidos, na década de 50. Um caminhoneiro sem nenhuma tradição de militância transformou-se no principal líder sindical dos Estados Unidos e fez de sua entidade, o Teamsters Union, uma das mais poderosas e temidas do país. Jimmy Hoffa começou a vida na beira da estrada, tentando convencer seus colegas caminhoneiros a se sindicalizar. Tornou-se um negociador implacável. Envolvido com a Máfia, Hoffa desapareceu misteriosamente em 1975. Assume-se que ele foi morto, mas seu corpo nunca foi encontrado. No Brasil, não há registro de caso semelhante, mas a estrutura atual dá margem a aberrações. A reforma, caso não seja retalhada pelos interesses corporativos, pode ajudar a tirar a picareta da mão dos espertos e fazer com que mais trabalhadores tenham ferramentas para seu sustento.

OTTON DA COSTA MATA ROMA, 41 anos

Vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro

Tempo como dirigente sindical: 8 anos

Número de trabalhadores da categoria: 280 000

Número de sindicalizados: 84 000

Mata Roma, filho de Luisant Mata Roma, que é presidente do sindicato há 36 anos, tem, segundo os registros do Departamento de Aviação Civil, dois aviões (o menor deles abaixo) e um helicóptero. Seu patrimônio é complementado por uma frota de veículos que inclui um automóvel, uma caminhonete off-road (abaixo), uma motocicleta de 600 cilindradas e um caminhão.

SÉRGIO BUTKA, 46 anos

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba

Tempo como dirigente sindical: 20 anos

Número de trabalhadores da categoria: 40 000

Número de sindicalizados: 18 000

Na declaração que apresentou ao TRE do Paraná, em 2002, quando foi candidato a deputado federal, Butka tinha em seu nome sete imóveis. Também possui uma caminhonete 4x4 e uma moto de 1 400 cilindradas. Na marina Mares do Sul, no Pontal do Sul, estaciona sua lancha, batizada de Paty.

Fonte: Veja