sem título
Vidão de
sindicalista
Avião, lancha, carro de luxo,
casa na praia... É assim que vivem alguns dos
principais dirigentes sindicais
brasileiros, que há décadas se mantêm no poder
Ronaldo França e Marcelo
Carneiro
O salário médio de um
empregado do comércio, nas grandes cidades brasileiras, não
passa de 800 reais. Estima-se que o setor empregue quase 6
milhões de pessoas. São, em geral, homens com idade entre 25 e
40 anos, com ensino básico incompleto e submetidos a jornadas de
trabalho superiores às de outros setores da economia. Há,
porém, uma casta de comerciários que não tem do que reclamar.
Ela é formada por presidentes e diretores de sindicatos. Um
peixe gordo da categoria é Otton da Costa Mata Roma,
vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio do Rio
de Janeiro. Ele é filho de Luisant Mata Roma, que há 36 anos
preside a entidade. Aos 41 anos, é dono de dois aviões, um
helicóptero e de uma frota que inclui um caminhão, dois carros
e uma motocicleta. Roma é um dos expoentes de um tipo de
distorção que é a marca do sindicalismo brasileiro. Um
sindicalismo que formou líderes sérios como o atual presidente
da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mas no qual reinam o
monopólio e a falta de transparência na gestão dos recursos.
Nesta semana, o Brasil dará o primeiro passo para acabar com
esses privilégios. Chega à Câmara o projeto de lei da reforma
sindical. O projeto altera pontos nevrálgicos da lei atual, um
texto fóssil inspirado no fascismo de Mussolini.
O texto vai alterar uma
estrutura que não diz respeito apenas aos sindicatos. As
distorções da estrutura sindical brasileira contribuem para um
dos maiores problemas do país. A Justiça do Trabalho recebe,
todos os anos, 2 milhões de novos processos para julgar, o que
lota os tribunais, consome recursos do Estado, inferniza a vida
de empresários e trabalhadores e acirra a já sufocante
instabilidade jurídica brasileira, contribuindo para um ambiente
de incerteza que inibe e retrai investimentos. É o Brasil que
paga a conta de um sistema que permite a existência de
representações de fachada como o inacreditável
Sindicato dos Condôminos de Campinas e acordos coletivos
pouco transparentes, além de manter na legalidade a rentável
indústria da picaretagem sindical. Hoje, todos os trabalhadores
são obrigados a pagar contribuições, sejam ou não
sindicalizados, sem que os dirigentes precisem mover uma palha em
favor de sua categoria profissional. Pelo novo projeto de lei, o
sindicato só poderá cobrar de quem efetivamente se filiar ou
quando sua ação de negociação com os patrões produzir
resultados reais. Outra mudança dá-se no critério para
formação de novos sindicatos. Só poderão existir entidades
que tenham em seu quadro de associados 20% da categoria
profissional. A reforma também trará mais transparência às
contas, cuja fiscalização hoje inexiste, e regulamentará o
processo eleitoral, uma arapuca que permite aos dirigentes se
perpetuarem nos cargos para manter seus privilégios.
E como se perpetuam. Paulo
Fernandes Lucania, 65 anos, presidente da Federação dos
Empregados no Comércio do Estado de São Paulo, é um exímio
negociador. Nas últimas décadas obteve ganhos significativos
para sua rotina pessoal. Circula pelos céus do país a bordo de
um avião King Air, para nove passageiros. Benefício que nem
mesmo diretores de algumas das maiores empresas nacionais
conseguem desfrutar. Eventualmente o utiliza para voar até o
litoral sul do estado, em Praia Grande, onde a federação
mantém uma colônia de férias com padrão de um hotel
quatro-estrelas. Todos os comerciários podem utilizá-la. Só
não têm acesso à suíte presidencial. Somente Lucania e seus
convidados podem entrar no aposento de sete cômodos, com sala de
vídeo, suíte para hóspedes, hidromassagem, sala de estar e
todos os mimos que a vida de dirigente sindical pode oferecer.
A atual estrutura dá margem a
que toda essa mordomia seja possível sem que se precise recorrer
a ilegalidades. Ainda assim, causa estranheza como alguns
sindicalistas conseguem reunir patrimônios tão polpudos. O
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba,
Sérgio Butka, concorreu em 2002 a uma vaga na Câmara dos
Deputados e declarou ao Tribunal Regional Eleitoral ter em seu
nome sete imóveis. Além deles, tem caminhonete off-road, lancha
e motocicleta. Bens que não estão ao alcance de um metalúrgico
que não seja dirigente sindical. A idéia de usar um sindicato
para benefícios pessoais não é nova. Em vários países o
sindicalismo descambou para a malandragem. O exemplo célebre vem
dos Estados Unidos, na década de 50. Um caminhoneiro sem nenhuma
tradição de militância transformou-se no principal líder
sindical dos Estados Unidos e fez de sua entidade, o Teamsters
Union, uma das mais poderosas e temidas do país. Jimmy Hoffa
começou a vida na beira da estrada, tentando convencer seus
colegas caminhoneiros a se sindicalizar. Tornou-se um negociador
implacável. Envolvido com a Máfia, Hoffa desapareceu
misteriosamente em 1975. Assume-se que ele foi morto, mas seu
corpo nunca foi encontrado. No Brasil, não há registro de caso
semelhante, mas a estrutura atual dá margem a aberrações. A
reforma, caso não seja retalhada pelos interesses corporativos,
pode ajudar a tirar a picareta da mão dos espertos e fazer com
que mais trabalhadores tenham ferramentas para seu sustento.
OTTON DA COSTA
MATA ROMA, 41 anos
Vice-presidente do Sindicato dos
Empregados no Comércio do Rio de Janeiro
Tempo como dirigente sindical: 8
anos
Número de trabalhadores da
categoria: 280 000
Número de sindicalizados: 84
000
Mata Roma, filho de Luisant Mata
Roma, que é presidente do sindicato há 36 anos, tem, segundo os
registros do Departamento de Aviação Civil, dois aviões (o
menor deles abaixo) e um helicóptero. Seu patrimônio é
complementado por uma frota de veículos que inclui um
automóvel, uma caminhonete off-road (abaixo), uma motocicleta de
600 cilindradas e um caminhão.
SÉRGIO BUTKA,
46 anos
Presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos da Grande Curitiba
Tempo como dirigente sindical:
20 anos
Número de trabalhadores da
categoria: 40 000
Número de sindicalizados: 18
000
Na declaração que apresentou
ao TRE do Paraná, em 2002, quando foi candidato a deputado
federal, Butka tinha em seu nome sete imóveis. Também possui
uma caminhonete 4x4 e uma moto de 1 400 cilindradas. Na marina
Mares do Sul, no Pontal do Sul, estaciona sua lancha, batizada de
Paty.