sem título
Há quase
meio século no poder, líderes sindicais ignoram reforma de Lula
Vitor e Roma têm estilos
diferentes, mas algo em comum: ficam bem longe da oposição
cerrada das entidades, enfrentada por Berzoini
A reforma sindical chegou ao
Congresso sob fogo cerrado de federações e sindicatos
rebelados, mas parece não incomodar pelo menos alguns antigos
líderes que assumiram o comando de suas entidades há quase meio
século.
Luisant Mata Roma preside o
Sindicato dos Comerciários do Rio há 39 anos. Henrique Vitor
assumiu o comando do Sindicato da Construção Civil de Jaú há
45.
Estilos diferentes, os dois têm
em comum o gosto pelo poder. O projeto do governo não mereceu
devida atenção de Vitor. "Quer saber? Nem li o projeto, é
balela."
Ricardo Berzoini, ministro do
Trabalho, diz que a reforma busca eliminar "estrutura
pulverizada, de baixa transparência e pouca
funcionalidade". São quase 20 mil sindicatos no Brasil,
entre patronais e de trabalhadores. Para Berzoini, "boa
parcela não tem capacidade ou mesmo vontade de realizar o
autêntico papel sindical".
Ele argumenta que a estrutura
sindical favorece que entidades que formalmente representam
centenas de milhares de trabalhadores "mantenham um colégio
eleitoral de poucos, de mais fácil controle, arrecadando
dinheiro de todos em proveito de uma minoria".
Vice de sindicato tem
aviões e helicóptero
Otton Roma trabalha há 39 anos
na entidade comandada por seu pai, no Rio
Wilson Tosta
RIO - Dois aviões, um
helicóptero, uma caminhonete e um veleiro, com valores que,
somados, vão de R$ 668.700 a mais de R$ 1 milhão. A frota de
ar, terra e mar não pertence a um grande empresário, mas a
alguém cuja missão é defender trabalhadores pobres: o
vice-presidente do Sindicato dos Comerciários no Rio, Otton da
Costa Mata Roma. Filho de Luisant Mata Roma, que preside a
entidade desde 1966, Otton tem registrados o bimotor Cessna 402B
prefixo PT-JRR; o monomotor EMB-711 PT-NCZ; e o helicóptero
HU30, modelo 269B, PT-HJG. Também em seu nome, o Detran registra
a Ford F/250 XLT W20, 2004, placas LTB0275, e a Capitania dos
Portos, o barco à vela batizado de Brasileiro. Procurado por
telefone, Otton não retornou pedido de entrevista do Estado.
De acordo com o site do
Departamento de Aviação Civil (DAC), o bimotor leva oito
passageiros e foi transferido em 14 de julho de 1999. No mercado
de aviões usados, um modelo semelhante vale de US$ 85 mil a US$
150 mil (R$ 227.800 a R$ 402 mil), com média de US$ 120 mil (R$
321.600). O DAC também informa que o EMB, com três lugares, tem
como data de compra ou transferência 5 de agosto de 2004. Deve
valer de US$ 60 mil a US$ 80 mil (R$ 160.800 a R$ 214.400), com
média de US$ 70 mil (R$ 187.600). Já o helicóptero, para dois
passageiros, foi passado em 18 de abril de 2001. Preço
provável: de US$ 70 mil a US$ 110 mil (R$ 187.600 a R$ 294.800),
com média US$ 100 mil (R$ 268.000).
Na Capitania dos Portos do Rio
de Janeiro, está registrado que o Brasileiro tem 4,23 m - uma
embarcação pequena, de fibra de vidro, fabricada em 1982, cujo
valor de mercado aproximado deve oscilar entre R$ 2.500 e R$
5.000. A caminhonete está sob regime de alienação fiduciária
(foi comprada com financiamento, constituindo sua própria
garantia) e vale aproximadamente R$ 90 mil.
Somados, os valores médios
chegam a cerca de R$ 870.000. Os cálculos foram feitos com o
dólar a R$ 2,68, registrado na quinta-feira. O patrimônio em
veículos registrado em nome do sindicalista contrasta com as
condições econômicas da categoria, com cerca de 300 mil
pessoas, à qual Otton pertence. A convenção coletiva em vigor,
de junho de 2004, fixa duas faixas de piso salarial, uma de R$
318, outra de R$ 350. O reajuste, a partir de 12 de maio de 2004,
foi de 6% para quem ganhava até R$ 2.500; acima daí, valeu um
índice a ser "livremente pactuado". De maio de 2003 a
abril de 2004, o IPCA foi de 5,26%.
O Estado tentou insistentemente
na semana passada um contato com Otton, que foi procurado sete
vezes por telefone na sede do sindicato. Uma secretária anotou o
recado, com o assunto da reportagem, e depois confirmou que o
vice-presidente o recebera. Chegou a dizer, na sexta-feira, que
seu chefe daria entrevista, atribuindo a demora a reuniões.
Otton Mata Roma, contudo, não ligou de volta.
PARENTE
Cercar-se de parentes no
sindicato é uma característica do pai de Otton, o advogado
Luisant Mata Roma, um dos mais antigos sindicalistas do País.
Sua mulher, Aderita da Costa Mata Roma, é coordenadora das
creches do sindicato, uma delas a Tia Aderita. Uma filha,
Mônica, foi nomeada para dirigir o Colégio Paulo VI, também do
sindicato. Uma irmã do sindicalista, Luzanir, já foi chefe de
Recursos Humanos. "Os parentes não traem nunca", disse
Roma ao Estado, em entrevista em 2003, quando assegurou que
parente que não tiver competência não trabalha com ele.
Segundo Roma, Aderita foi contratada por decisão de assembléia,
porque trabalhava sem registro - a contratação em carteira é
de 1.º de agosto de 1987.
Segundo Relatório Anual de
Atividades do sindicato, Otton foi um dos diretores da entidade
que quitaram em 2002 os apartamentos que compraram no Edifício
Roma IX, construído pela entidade na Ilha do Governador. Outros
dois dirigentes sindicais na época - Bartolomeu Vieira da Silva
e Mário Rocha - fizeram o mesmo. O "valor real" de
cada imóvel, diz o documento, é R$ 56.032.
O estilo personalista também
foi levado às paredes da sede do sindicato, que chegaram a ser
decoradas com ladrilhos com o nome Roma - outra alusão ao
presidente, no 12.º mandato sindical.
'Eu nem li o
projeto, é muita balela. Querem reformar o quê?"
Henrique Vitor, 45 anos
presidente de sindicato em Jaú, não vê por que mudar
Fausto Macedo
À sombra do Estado Novo,
Henrique Vitor pôs os pés no sindicato pela primeira vez em
1942. Agora, com 4 filhos, 8 netos e 85 anos de idade, exibe com
satisfação sua carteira de filiação, número 11, e o recorde
de quatro décadas e meia na presidência do Sindicato dos
Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de
Jaú.
"A turma não me deixa
sair, não tem oposição", diz. Ninguém almeja seu posto,
garante. "Ora, quando chega a época da eleição passo
todos os informes, mando circular e tomo todas as providências
regulamentares, mas ninguém quer saber. O trabalhador não se
interessa tanto."
Chegou à presidência do
sindicato em julho de 1960. Recorda-se com ponta de nostalgia dos
tempos em que lotava o clube dançante dos operários da cidade.
"Antigamente eu convocava uma assembléia e o salão ficava
pequeno demais, o pessoal ia lá de montão. De uns tempos para
cá, só sabem perguntar quando é que sai aumento. Telefonam só
para isso."
Aposentado como juiz classista
do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, função que
assumiu por ato do regime militar e que lhe garante vencimentos
de R$ 10 mil por mês, Vitor não dá atenção para a anunciada
reforma sindical que o governo entregou ao Congresso. "Quer
saber? Nem li o projeto, é muita balela. Não sei porque eles
falam de reforma. Liberdade para quê? Para gastar o dinheiro das
entidades? Essa turma é sonhadora. Querem reformar o quê?"
Getúlio Vargas é sua
referência, lhe traz boas recordações. "O Getúlio foi o
maior estadista do mundo, ele implantou as leis sociais no Brasil
no tempo do coronelismo. Conseguimos o 13.º, descanso semanal
remunerado, férias de 30 dias. O Getúlio teve os seus erros,
mas seus méritos devem ser mantidos até hoje."
RECEITA
O sindicato de Henrique Vitor
abrange 6 setores de produção, como construção civil,
cerâmica e mobiliário, com cerca de 5,5 mil trabalhadores em
Jaú e cinco municípios vizinhos - Bocaina, Bariri, Dois
Córregos, Itapuí e Dourado - a 300 quilômetros de São Paulo.
"Meu sindicato é pluralista, são 6 categorias, 6
convenções coletivas no ano."
A receita da agremiação vem da
contribuição dos sindicalizados. "Tenho gabinete dentário
próprio, barbeiro e um bom convênio médico com desconto
especial para os associados, tudo isso eu ofereço a eles",
conta.
O sindicato tem sede própria,
no centro de Jaú, um sobrado com meia dúzia de salas no
primeiro piso e salão em cima para as reuniões da diretoria.
"Uma maravilha", anima-se o presidente. O imóvel vale
R$ 300 mil.
Construiu, é claro, a colônia
de férias na praia, em Mongaguá. Não é coisa de padrão
elevado e requintes, mas ele se enche de brios quando fala da
obra: "É para mais de 500 pessoas, uma colônia de respeito
e, o que é melhor, fica de frente para o mar."
Preserva documentos que reputa
importantes em sua trajetória, entre eles fotografia em preto e
branco da qual fala com bastante carinho. Na foto, ele e o
general Emílio Médici, então presidente do Brasil. Era um 7 de
setembro, o de 70 ou de 71. "Não me lembro bem o ano. Virei
juiz classista por ato do Médici, por isso fui cumprimenta-lo
durante a solenidade. Eu disse a ele que tinha muito prazer em
apertar sua mão e agradeci pela nomeação. Foi uma boa
passagem."
PRESSÃO
Como magistrado classista, um
dia conheceu Lula. "Ele foi no tribunal fazer
pressão", conta. Era 1979, por aí. Na época, Lula
presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Vitor
foi relator do dissídio coletivo da categoria. "Acolhi
quase todas as reivindicações e o meu voto prevaleceu por
unanimidade."
Rejeitou apenas 1 item da pauta,
100% na hora extra. "Eles não gostaram, mas indeferi porque
aquilo ia tirar o lugar de muitos. A gente ia institucionalizar a
escravidão, a necessidade de trabalhar mais de 8 horas por
dia."
A infância foi apertada,
recorda-se. Não passou do curso primário. Com 10 anos, saiu da
escola para ajudar em casa. Foi para a rua vender bananas. Mais
tarde, arrumou emprego na "Ao Jaú Progride", fábrica
e loja de móveis de bom conceito na praça. Trabalhava na
expedição.
Era o Brasil de Vargas, mas já
naquele tempo Vitor ganhou interesse pelo sindicato. "Eu
tinha minhas idéias, o trabalhador precisava ter alguma coisa,
algum benefício. Só professores tinham férias. Eu achava que
todo mundo tinha de receber esse direito."
Os pais o advertiam dos riscos
da aventura sindical em tempos de tirania. "Fica quieto
rapaz, você sonha acordado", diziam. A avó, espanhola de
Sevilha, apartava e o defendia. "Deixa que o menino está
certo."
REGISTRO
Filiou-se ao sindicato com 22
anos. Logo, tornou-se presença assídua nas assembléias. Virou
oposição.
Em 1964, a Revolução. Ficou
detido por umas horas. A intervenção não pegou seu sindicato,
mas os militares o pegaram na fábrica e o levaram num jeep.
"Eles queriam saber de tudo", relata Vitor, que foi
apanhado quando distribuía o guia do imposto sindical para os
companheiros.
Na carteira profissional,
registro que o deixa orgulhoso - um único lançamento, da
"Ao Jaú Progride". Foram 42 anos na mesma empresa,
onde entrou em 1937 e seguiu até 1979. Um feito e tanto.
Fez greve na fábrica, na
década de 40. A 2.ª Guerra ia solta. "A gente vai encurtar
o braço", anunciou, então. Ainda não havia convenção
coletiva. O chefe, um sujeito italiano, quis endurecer. "É
proibido fazer greve branca", alertou. "Mas tem uma
coisa", retrucou Vitor. "O senhor sabe que é proibido
italiano mandar em brasileiro?" e