sem título
Ignorados
pelo Censo, brasileiros aderem a protesto
DE WASHINGTON
Se a manifestação de ontem foi
também contra a discriminação dos imigrantes, os brasileiros
tiveram um motivo a mais para fazer parte dela. Pela
peculiaridade lingüística, são exceção num continente que
praticamente só fala espanhol.
Também não se consideram
"latinos" nem hispânicos -no último Censo local,
poucos colocaram "x" em uma das duas opções, e não
havia uma para "brasileiro", o que fez de
"branco" a escolha da maioria.
Assim, oficialmente são menos
de meio milhão, mas estima-se um número pelo menos três vezes
maior. Na região de Washington, concentram-se em Silver Spring,
no Estado vizinho de Maryland e a poucos minutos da capital do
país. Trabalham como operários ou fazendo pequenos serviços.
É o caso de Antônio Pereira, 26, marceneiro que chegou de
Goiás há quatro anos. Ontem, ele organizou uma caravana de
goianos para protestar. (SD)
Folha - Contra o quê?
Pereira - É preciso colocar um
pouco de pressão para ver se eles mudam a lei ou se fazem alguma
coisa para a gente. É muito difícil viver do jeito que a gente
está vivendo aqui. Não é uma prisão, mas também não tem
muito direito não. Queremos mostrar que de alguma forma temos
importância, que estamos fazendo o trabalho pesado para eles.
Folha - Você é discriminado?
Pereira - Ouvi um ditado aqui:
"A América é para todos, nem todos são para a
América".
Milhares de
imigrantes protestam nos EUA
Manifestação reúne 180 mil em
Washington e é acompanhada por marchas em outras 60 cidades
Sérgio Dávila
DE WASHINGTON
"Si se puede." Sim, é
possível. Ou "yes, you can", na tradução local.
Washington ontem falou espanhol, pelo menos em seu tradicional
palco de protestos, o Mall, o longo passeio que liga o Monumento
a George Washington ao Capitólio, sede do legislativo americano.
Ali se reuniram no final da tarde milhares de pessoas, 180 mil
segundo os organizadores, numa cidade em que a população de
latinos é estimada em 600 mil.
É a maior manifestação do
tipo na história da capital e foi acompanhada por eventos
semelhantes, embora de menor dimensão, em Nova York, Los Angeles
e outras ultrapassando cem cidades. Instados por ONGs, os
imigrantes responderam ao Dia Nacional de Ação pela Justiça do
Imigrante, ou apenas "La Marcha".
"Si se puede",
começou seu discurso o senador democrata de tradição liberal
Ted Kennedy (Massachusetts), num espanhol carregado de sotaque
mas vivamente aplaudido. Sua presença no palco era a
consolidação de um paralelo que os manifestantes vêm tentando
traçar desde o começo do movimento, em dezembro passado, e ao
longo do último fim-de-semana: a idéia é fazer da luta pelos
direitos dos imigrantes ilegais hoje o que a luta pelos direitos
civis foi nos anos 60.
Assim, não foi coincidência o
local escolhido nem as semelhanças apontadas pelo senador.
"Como declarou o presidente Kennedy meio século atrás,
somos uma nação de imigrantes", discursou, para aplauso
das pessoas.
"Somos uma nação de
imigrantes, sim, mas legais", rebateu à Folha Ira Mehlman,
da organização conservadora FAIR, que luta contra a presença
de ilegais no país. Com ele está parte da opinião pública
-segundo pesquisa encomendada pelo jornal "The Washington
Post" e pela rede de TV ABC, 75% acreditam que as
autoridades não agem o suficiente para evitar a imigração
ilegal.
Está em jogo o destino de pelo
menos 11 milhões de pessoas, na maioria latino-americanos, na
maioria mexicanos. Segundo o projeto de lei da ala conservadora
republicana aprovado pela Câmara dos Representantes (deputados)
em dezembro, todos devem ser deportados, e os que os empregam ou
ajudam, sofrer punição. É prevista ainda uma cerca na
fronteira mexicana.
Outras propostas mais brandas
ganharam o apoio parcial do presidente George W. Bush. Segundo
uma delas, os imigrantes que se legalizarem podem ficar no país,
desde que paguem impostos, aprendam a língua e sigam as leis.
Bush disse ontem: "As
pessoas deveriam estar aqui temporariamente. Se quiserem se
tornar cidadãs, depois de uma série de etapas, entrarão na
fila, como o resto; não à frente da fila, mas no final".
Os projetos foram discutidos na
semana passada no Senado, sem acordo. A série de protestos foi
convocada para pressionar a sessão de volta do recesso de
Páscoa.
Por que os EUA
não acertam quando o tema é imigração
Michele Wucker
ESPECIAL PARA A FOLHA
Na última semana, enquanto
discutiam um polêmico projeto de reforma das leis de
imigração, vários senadores americanos se sentiram obrigados a
lembrar que também eles eram descendentes de imigrantes. Ao
mesmo tempo em que uma minoria pede em voz alta a construção de
cercas nas fronteiras, ai de qualquer político que deixar de
render homenagem à história dos EUA como país feito de
imigrantes. Pois essa discussão se baseia mais em discursos
retóricos do que em fatos.
Emoções que oscilam loucamente
são a razão pela qual o Senado deixou de consumar um acordo que
foi anunciado com euforia, apenas para desabar no dia seguinte.
Isso não é surpresa. A história dos EUA com seus imigrantes
já envolveu políticas que freqüentemente passam de um extremo
a outro e têm resultados opostos aos pretendidos.
Após a grande onda de
imigração ocorrida entre 1880 e 1920, o Congresso reduziu as
cotas de imigração, provocando uma queda drástica no fluxo de
imigrantes. Em 1965, uma nova reforma escancarou as portas do
país a tal ponto que o aumento dramático na imigração
ameaçou recriar a crise demográfica que provocara o fechamento
das portas em 1920.
Em 1986, a Lei de Reforma e
Controle da Imigração procurou enfrentar o novo aumento da
população, oferecendo uma anistia a quase 3 milhões de
imigrantes e supostamente impondo penalidades às empresas que
empregassem trabalhadores ilegais, "cientes de que o estavam
fazendo". Mas a lei foi aprovada apenas porque incluía
brechas.
O resultado foi uma nova
população de 11 milhões de imigrantes sem documentos, além de
um clamor antiimigrante que supera qualquer coisa ouvida em quase
um século. Culpando os imigrantes por tudo, publicações foram
criadas com o único objetivo de defender o fechamento das portas
do país. Livros que avisavam que os imigrantes ameaçavam
destruir a sociedade americana se tornaram best-sellers. E
políticos aproveitaram para promover leis mesquinhas e pouco
práticas.
Em dezembro a Câmara dos
Deputados aprovou uma lei que focaliza só a aplicação da
política de imigração e que teria garantido o financiamento de
uma barreira de 1.116 quilômetros na fronteira. A nova lei
criminalizaria não apenas os imigrantes não autorizados, mas
também aqueles que lhes oferecem ajuda humanitária.
Ao tentar reparar o sistema de
imigração desconjuntado, o acordo no Senado manteve alguns dos
dispositivos duros da lei, como o que determina que ser imigrante
ilegal constitui ofensa não só cível, mas criminal. Mas, de
maneira sábia, também teria criado um caminho para a
legalização e eventual aquisição da cidadania por imigrantes
ilegais que vivem nos EUA há pelo menos cinco anos e que
obedecem a certas restrições.
No entanto, assim que um grupo
de senadores de ambos os partidos anunciou o acordo, as
discordâncias começaram. Alguns senadores se posicionaram
contra qualquer proposta que envolva algum tipo de
"anistia", mesmo a legalização
"conquistada". Nesse ambiente envenenado, muitos
políticos temem ser rotulados de "brandos em relação à
imigração"- mesmo que isso signifique que sua adoção de
uma postura de linha dura crie mais problemas do que os que
resolve.
Os EUA não param de errar com a
imigração porque adotam políticas baseadas na emoção, que
nos deixam cegos aos nossos próprios interesses. Os políticos e
o público se deixam levar por princípios elevados, mesmo quando
as políticas que traçamos em nome do patriotismo e da nação
americana, quando levadas a extremos, enfraquecem os próprios
princípios. Se os EUA quiserem acertar com a imigração,
precisam trazer a discussão para fora do âmbito dos extremistas
e buscar soluções práticas. Foi isso o que o Senado procurou
fazer na semana passada. Embora a história não nos aponte uma
perspectiva encorajadora, só nos resta esperar que os
pragmáticos prevaleçam sobre os esquentados.
Michele Wucker, do Instituto de
Políticas Mundiais, em Nova York, é autora de "Lockout:
Why America Keeps Getting Immigration Wrong When Our Prosperity
Depends on Getting It Right" (lockout: por que a América
não pára de errar com a imigração, quando nossa prosperidade
depende do acerto), que será lançado no mês que vem nos EUA.
Tradução de Clara Allain